Um panorama sobre Nuestra America

Mercedes Sosa, Alí Primera, Violeta Parra, Victor Jara e tantos outros e outras, que cantaram com carinho e dedicação nossa terra, certamente estariam preocupados com a situação atual da América Latina. Não apenas um ou outro país exige nossa atenção. Atualmente, vemos todos os cantos de nosso continente acuados perante o projeto imperialista dos EUA. Com a prisão de Lula e o futuro incerto que temos no Brasil acerca das eleições e das garantias de nossos direitos democráticos, a solidariedade internacional e a compreensão da expansão do projeto imperialista para nosso continente se torna questão de sobrevivência.

Em Venezuela, a pressão pela derrubada do presidente Nicolás Maduro, cada vez mais exaltada e violenta, baixou as armas internamente e espera uma invasão estadunidense. Não bastou a direita venezuelana atacar sedes do PSUV e do PCV, matar sindicalistas e militantes bolivarianos. Ainda se exorta que a crise econômica deste país, em muito semelhante a qualquer outra crise de um país latinoamericano, é, na verdade, uma “crise humanitária”. Este termo, recentemente refutado por um especialista da ONU, é usado apenas em dois momentos pelas potências capitalistas: quando catástrofes de grandes proporções atingem algum país geograficamente próximo aos seus; ou quando querem desestabilizar um governo que não lhes apetece. A resistência bolivariana ainda é a força mais progressista de nosso continente. A porta que permite uma transição ao socialismo está aberta, e atravessá-la   muito dependerá de como o povo venezuelano consiga vencer a situação atual de crise econômica, bloqueios e agressões estrangeiras.

Em Colômbia, infelizmente, os tratados de paz não estão sendo seguidos em sua completude pelo governo, e ainda registram-se perseguições e assassinatos a lutadores e sindicalistas que agora tem vida pública, e não clandestina. Temos agora decretada a prisão e possível extradição para os EUA de uma das principais lideranças da FARC, Jesus Santrich, que iria ser um dos cinco deputados federais garantidos para a organização. Juan Manuel Santos não se posicionou de forma enfática pelo cumprimento dos acordos e o futuro segue incerto. Ainda por cima, não conseguiu estabelecer um cessar fogo bilateral com os camaradas da ELN (Exército de Libertação Nacional). Nossas forças, em relação a solidariedade ao processo colombiano devem ser a de forte pressão por segurança digna aos militantes que agora tem vida pública, ao cessar fogo bilateral com a ELN e garantir que os pontos do acordo de paz sejam respeitados, com a liberdade ao fariano Jesus Santrich. Avançar nos processos democráticos em Colômbia é garantir, em um país dominado militarmente por forças estadunidenses e mercenários de toda estirpe, que a população colombiana possa de fato lutar por seu futuro.

No Equador, a Revolución Ciudadana, sofreu um golpe muito forte com a capitulação do presidente Lenín Moreno, proveniente do mesmo partido de Rafael Correa. O ex-presidente do Equador, inclusive, foi atacado por manifestantes de direita, numa clara tentativa de ameaçá-lo caso queira retornar à presidência. Os eventos que se desenrolarem em Equador também são importantes, visto a atuação de Rafael Correa nas tratativas de paz da Colômbia e no apoio à Revolução Bolivariana.

Honduras vivenciou uma tentativa de golpe duríssima, a qual todas e todos os brasileiros deveriam estar completamente atentos. Quando sofremos o Golpe de 2016, foi comum lembrar da deposição do presidente Manuel Zelaya como sendo uma forma de “ensaio” para o golpe brasileiro. Ano passado, quando um candidato de centro-esquerda (mais pra centro…) aparentava ganhar as eleições, claras fraudes começaram a ser atestadas para o representante alinhado ao imperialismo assumir a presidência. Fortes embates populares contra as forças governamentais se seguiram, com resultados de aproximadamente 30 mortos e milhares de pessoas presas. Temos de unir nossas forças pela democracia em Honduras, sabendo que, no Brasil, uma eleição pode ter o mesmo desfecho.

A FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional), sofreu uma grave perda nas eleições em El Salvador. No país, o parlamento se renova de três em três anos. Agora, em 2018, a direita (descendente da raivosa e assassina ditadura) terá maioria qualificada. Em 2019 haverão as eleições presidenciais. Precisaremos ficar de olho em El Salvador, para garantir que os processos democráticos sigam seu rumo. Já sabemos que na América Latina (e no mundo todo) a direita nunca é democrática.

No Paraguai, país acossado pelas atuações de nossa burguesia ligada ao agronegócio, a Frente Guasú reúne os lutadores democráticos, progressistas e também os comunistas. O Partido Comunista Paraguaio fez recentemente 90 anos, renovando seu compromisso com as lutas do povo e a revolução socialista. No Chile, tivemos a aprovação e assinatura, pela presidenta Bachelet, da gratuidade do ensino universitário neste país. A conquista é simbólica: foi no Chile que o projeto neoliberal foi implementado pelo assassino e criminoso regime de Pinochet; e foi no Chile que o movimento estudantil historicamente lutou, com muito ardor, para que tal pauta pudesse ser um direito de todos e todas.

Existe um ditado, seja antigo, seja novo, que diz: “O Brasil é um país virado de costas para a América Latina”. Ora, de fato, existiu durante a história de nosso continente, um claro descompasso entre os acontecimentos da América Latina. Entretanto, ao mesmo tempo, existiu sempre uma clara correlação do projeto imperialista, seja para Guatemala, seja para Honduras, seja para Colômbia, seja para o Brasil. Lembremos do que nos legou Eduardo Galeano, cuja ausência física completa três anos. Nas ditaduras de segurança nacional, o planejamento, via de regra, foi o mesmo. Atualmente, os golpes parlamentares, as infiltrações ideológicas e as ameaças de invasão também seguem uma mesma lógica. Abracemos nuestra America, pois estes países são nossos irmãos. Para os yankees, somos todos “pátios traseiros”.