SOBRE ERROS CONJUNTURAIS, INTERNACIONALISMO PROLETÁRIO E SOLIDARIEDADE ENTRE OS POVOS: Um debate sobre a defesa do imperialismo por setores da esquerda

Quando assumimos a tarefa de sermos comunistas, deve ser da nossa compreensão o entendimento de que na grande maioria das vezes assumiremos posições que irão de encontro às posições hegemônicas. É uma questão lógica, afinal somos a antítese do status quo. É evidente que à medida que avançamos em nossos objetivos, mais repressiva vai ser a contra-ofensiva dos nossos adversários. Cercando-nos e obstruindo cada vez mais nossa margem de ação, o que pode acarretar em ações que, à primeira vista, pareçam autoritárias, mas que são necessárias.

Mais evidente ainda é que os inimigos irão se aproveitar para dizer que os problemas causados pelos cerco que eles mesmos fizeram, é algo intrínseco ao projeto de sociedade que defendemos. A partir do momento em que assumimos a crítica dos nossos inimigos por medo da opinião pública e colocamos num suposto pragmatismo o pretexto para virarmos as costas para os nossos aliados, assumimos também, por princípio, a negação da nossa revolução. Para isso serve a contra-propaganda imperialista: tornar cada vez mais insuportável a defesa daqueles que ousaram desafiá-los. Por isso a necessidade da “cura” da autofobia, que é sem dúvida a principal doença da esquerda, pior talvez do que o esquerdismo (geralmente andam lado a lado).

A defesa do novo mandato de Maduro, com todas as ressalvas possíveis, não é somente uma mera discussão diplomática ou um problema de “taticismo” político: diz respeito ao nosso rumo enquanto comunistas (como Seu Mimo dizia, nosso “Caminho”). Em última instância, diz respeito à imposição de uma vitória do socialismo ou de mais uma vitória do capitalismo.

A reeleição de Nicolas Maduro, em 2018, foi fruto de uma indicação da Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 2017 para a elaboração de uma nova Carta Magna da Venezuela. Como é de praxe nos processos constituintes venezuelanos a partir da eleição de Hugo Chávez, em 1998, ao término de seus trabalhos, a Assembleia chama uma nova eleição presidencial para que o novo presidente seja eleito e faça seu juramento conforme o novo documento. Vale ressaltar que o novo processo constituinte provocou uma grande revolta da burguesia, da grande mídia (pois, ao contrário do que se propaga, 80% da mídia do país é opositora ao governo) e demais setores alinhados ao imperialismo por conta de seu caráter popular: o processo de escolha de representantes se deu por meio de eleições a partir dos locais de moradia e locais de trabalho, reservando vagas a diversos segmentos da sociedade, tais como estudantes, operários da construção civil, petroleiros e até mesmo empresários (sendo estes minoritários, como proporcionalmente são na sociedade). O processo, obviamente, foi visto como antidemocrático por estes setores. Nada mais compreensível, pois sabemos que a burguesia treme toda vez que vê o povo tomando o protagonismo das ações políticas de um país. Também não surpreende a postura da mídia burguesa de todo o mundo, em especial do Brasil, de denunciar o processo como fraudulento (afinal, só os representantes da burguesia são legítimos) e o governo como “antidemocrático” ou até mesmo “ditatorial” (pois uma democracia em que o povo participe não é democracia).

Infelizmente, também não surpreende que tenhamos posições desonestas ou profundamente mal informadas entre setores da esquerda sobre o processo venezuelano e luta de seu povo contra o imperialismo. Alguns dos grupos mais empenhados em criticar o governo Maduro carregam consigo um histórico de defesa de “revoluções coloridas” promovidas pelo imperialismo por todo o mundo. Esses erros, entretanto, não são meras leituras reiteradamente equivocadas de processos isolados, mas sim a falta de compreensão da importância da luta anti-imperialista, como se a ingerência de países do capitalismo central sobre países periféricos nada tivessem a ver com a realidade da classe trabalhadora nesses países. Há, ainda, um forte componente eurocêntrico em suas análises: seus referenciais sempre se baseiam em experiências (muitas delas timidamente progressistas) de países centrais, como são os casos do Syriza, Podemos, ou até lideranças individuais, como Bernie Sanders e Jeremy Corbyn. Nunca há menções a importantes experiências latinoamericanas, como o processo Colombiano, a Revolução Cidadã, a ALBA, a Revolução Sandinista, o Estado Plurinacional Boliviano. Sem contar a terrível façanha de que veículos midiáticos burgueses, que ajudaram a implementar a Ditadura de 1964 e hoje colaboram abertamente com o que há de mais degenerado do processo golpista virarem veículos autorizados para falar sobre a conjuntura latinoamericana.

O internacionalismo não pode ser a espera inocente e passiva de uma revolução a nível mundial que salvará os trabalhadores da exploração burguesa. É central analisar, principalmente na América Latina, o papel do imperialismo na reação à luta dos povos explorados por sua soberania e autodeterminação, bem como a defesa de suas riquezas e do interesse do povo. O governo de Maduro tem limites e críticas podem ser feitas neste sentido, mas é inegável que sua reeleição representa hoje a vitória do campo popular contra a ofensiva imperialista não apenas na Venezuela, mas em toda a América Latina. Não é a toa que Jair Bolsonaro, uma marionete de Washington, sobe tanto o tom, com críticas ao governo do país. A Venezuela é estratégica na região e a desestabilização de seu governo é central para os planos dos EUA para a América Latina, bastando lembrar que o atual vice-presidente já afirmou que uma das prioridades do governo é levar “democracia” a Venezuela, Nicarágua e Cuba. Mais do que nunca, é necessário que prestemos a nossa solidariedade ao povo venezuelano na defesa de sua soberania, de seu governo e contra os ataques externos que estão por vir. Assim como é necessário um sonoro repúdio a organizações que preferem fazer coro ao imperialismo do que defender processos legítimos que ocorrem em nuestra america.

Ser solidário aqueles que, em sua luta, são solidários a classe trabalhadora brasileira!

Viva Maduro! Viva o povo Venezuelano!

Viva a América Latina!

Salvador Sanchez Ceren (El Salvador), Evo Morales (Bolívia), Nicolás Maduro (Venezuela) e Miguel Díaz-Canel (Cuba)