Nota Política – Eleições DCE UFRGS 2014

Há alguns anos o
movimento estudantil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) vê a
ascensão de grupos conservadores organizados – que se antes já existiam de
forma dispersa reproduzindo discursos de senso comum. Hoje, representam uma
direita ideológica com uma clara agenda privatista, elitista e antipopular,
fundamentando-se na reprodução de um discurso reacionário, opressor e
excludente.
Em boa parte
desse período, nós da Juventude Comunista Avançando (JCA),
como uma organização atuante no movimento estudantil de nossa universidade, na
permanente construção da estratégia por uma universidade popular, avaliamos
como necessária uma unidade da esquerda anti-governista para combater a crescente
do conservadorismo, assim como o projeto neo-desenvolvimentista do governo
federal para a educação brasileira (que tem atrelado à educação a interesses
dos monopólios, do latifúndio e do imperialismo, submetendo a educação nacional
aos ditames das cartilhas do Banco Mundial e FMI), representado em nossa
universidade pela sua administração central.
Nos anos em que
estivemos ombro a ombro com grupos de esquerda até então hegemônicos na UFRGS,
sempre alertamos que práticas vanguardistas, verticais e muitas vezes
aparelhistas estavam pavimentando o caminho para o crescimento da direita e do
governismo dentro do movimento estudantil. Entendemos, é claro, que o
crescimento da direita deve-se a vários fatores: a despolitização provocada por
governos ditos de “esquerda”, uma conjuntura adversa e uma crise de
participação e representatividade que não está só nos corredores da UFRGS, mas
na sociedade geral. Porém, isso tudo, aliado ao afastamento da entidade da base
dos estudantes e à malfadada prática da autoconstrução pela autoconstrução,
praticada por algumas organizações que compuseram gestões anteriores, agravaram
esse processo e auxiliaram o esvaziamento do movimento e a vitória da direita
conservadora com recortes fascistas nas eleições de 2013, sendo esta, gestão no
ano de 2014. Uma gestão marcada pelo atrelamento da entidade a partidos
liberais/conservadores, aos interesses privados. Vimos um silêncio perante as
demandas das/dos estudantes, sobretudo das/dos estudantes trabalhadores/as,
atacando e visando desconstruir as lutas que ocorreram no período, e propagando
discursos e práticas de ódio profundamente conservadores e opressores em
aliança com grupos auto-declarados fascistas.
Da luta
viemos…
As lutas e
articulações que ocorreram na universidade no ano de 2014, tais como o comitê
de luta pela paridade, o comitê estudantil em defesa da palestina, a fundação e
construção do coletivo de bolsistas, a ocupação do direito e a vitoriosa
ocupação da reitoria (lutas as quais não nos apropriamos como
“donos” ou “tutores”, mas que estivemos construindo ativamente) aproximaram
setores (organizações e, sobretudo, estudantes independentes) que ao longo do
processo foram se tornando uma verdadeira articulação, neste momento para tocar
as lutas da universidade e a luta dos “de baixo” em geral. No período das
eleições houve um sentimento geral de que este campo deveria dar uma resposta
programática e propositiva às demandas das/dos estudantes que foram levantadas
nas lutas ao longo do ano. Como o momento eleitoral é bastante fértil ao debate
e como o DCE é uma importante ferramenta na organização e potencialização das
lutas, avaliamos por bem abrir um processo de debates com todas as forças da
esquerda anti-governistas acerca da possibilidade de formação de uma chapa que
expressasse o acúmulo dessas e outras lutas que vinham/vêm ocorrendo, e a
constituição – mais do que uma “coligação” eleitoral – de uma frente capaz de
construir uma agenda de lutas para o próximo período e também de médio/longo
prazo, visando combater o pensamento conversador, não só personalizado na
gestão de direita do DCE/2014, mas principalmente na hegemonia
liberal/conservadora/burguesa que permeia as relações econômicas, sociais e
culturais neste país de capitalismo dependente.
Achamos que o combate
à hegemonia burguesa, que alargue o caminho para superá-la, só poderia se dar
com um debate verdadeiramente programático e horizontal, não somente por uma
unidade de correntes, mas que fosse oriundo das lutas das/dos estudantes, e
principalmente, forjado em práticas de novo tipo, como horizontalidade, apoio
mútuo, democracia de base, busca permanente pelo estabelecimento de consensos,
e muito respeito entre os coletivos e indivíduos. Neste sentido chamamos três convenções abertas a quem quisesse se somar,
e aqueles que ali estiveram compreenderam que a unidade se dá como expressão
das lutas e não nas vésperas das eleições
. Desse processo deu-se a
construção da chapa Na Mesma Barca –
Unidade é pra Lutar!
Construímos de maneira horizontal e coletivamente um
programa desdobrado em 4 eixos (democracia, formação universitária, direitos
estudantis e diálogo/relação universidade/sociedade), com mais de 27 páginas,
baseado sobretudo nas pautas levantadas na última ocupação da reitoria.
Priorizamos o
debate franco e propositivo com as/os estudantes, fazendo da campanha, dos
debates e das passagens em sala, um verdadeiro chamado à organização entorno
deste programa, que é uma agenda de lutas (para além das eleições) para o ano
de 2015.
Chamamos a
atenção para o fato de que não se vence a hegemonia
liberal/conservadora/burguesa com discursos retóricos, mas com organização e
trabalho de base conseqüentes, com a luta popular, construída junto aos “de
baixo” e à esquerda, com a mobilização das/dos estudantes. Em momento algum
caímos na vala comum do vale-tudo eleitoral, orientada pela velha máxima de que
“os fins justificam os meios”. Buscamos desde a campanha estabelecer uma práxis
libertadora e pedagógica, orientada por valores de transparência, sinceridade,
respeito e apoio mútuo, tendo sempre a certeza de que a eleição não é um fim em
si, mas uma página a mais nesta agenda da luta popular que deve sempre ir para
além dos limites institucionais. Neste sentido nossa campanha foi linda.
Estivemos em todos os campi da universidade, debatendo com estudantes de todos
os cursos, recebendo muitos apoios, aprendemos muito com as/os estudantes com
quem tivemos a oportunidade de conversar, tivemos a oportunidade de ouvir
sugestões para as quais não tínhamos atentado anteriormente, críticas que nos
serviram de baliza para nossas autocríticas e para buscar superar nossas
limitações, e chamamos a todas/os para uma reflexão acerca do movimento
estudantil, de pra que(m) serve o conhecimento produzido na universidade, como
devemos nos colocar enquanto sujeitos na história, etc.
Essa foi a
missão que nos propusemos a cumprir, e creio que dela saímos vitoriosos. Uma
vitória política importante, que foi expressa nos 1384 votos que recebemos. Não
olhamos apenas para a cifra, como se as/os estudantes fossem apenas números.
Porém, muito nos alegra essa expressiva votação, pois sabemos que são 1384
votos conscientes, reflexivos, ideológicos, oriundos de uma postura de confiar
na capacidade de reflexão das/dos estudantes.
A eleição se encerrou
com o maior quorum desde a redemocratização, tendo a participação de mais de 7
mil estudantes, um número ainda pequeno (se comparado ao número de estudantes
da UFRGS), mas que nos dá esperanças de ver mais colegas se integrando ao
movimento estudantil, não apenas pelo voto, mas como sujeitos ativos na
construção do mesmo. Temos a certeza que a nossa chapa contribuiu bastante para
esse crescimento.
Por fim, a
direita sofreu importante derrota nestas eleições. Reconhecemos a vitória da
Chapa Podemos – Mobilizar e Conquistar
e a importância da derrota eleitoral da direita. Acreditamos que a nossa chapa
teve papel fundamental para tal derrota, pois fizemos massivas passagens em
sala nos cursos onde a direita tem votações expressivas. Contribuímos para a
construção de uma contra-hegemonia, que mesmo em caráter embrionário pode abrir
o caminho para suplantarmos a hegemonia liberal/conservadora/burguesa não só
eleitoralmente, mas em todos os âmbitos. Esperamos que as/os companheiras/os
possam fazer a necessária autocrítica para que esta não seja apenas uma gestão de esquerda, mas possa
estar no cotidiano da base dos estudantes, construindo as lutas de forma
horizontal e possibilitando em um futuro (esperamos que próximo) o sepultamento
do pensamento conservador em nossa universidade e nossa sociedade. Em todas as
lutas que as/os companheiras/os estiverem presentes, lá estaremos, de forma
independente, construindo a unidade de
ação, a unidade na luta
. Neste sentido ressaltamos que não comporemos a
gestão de 2015, talvez frustrando a expectativa de alguns que assim esperavam.
Estaremos nas lutas cotidianas da universidade e dos debaixo e à esquerda, se
lá se encontrarem as/os companheiras/os, certamente nos veremos ao longo do
ano.
O
trabalho necessário para a construção de uma Universidade Popular é um trabalho
cotidiano, um trabalho voltado para a base. Sabemos que não é a vitória
eleitoral que dará conta dessa tarefa, e sabemos que nossa participação
nas eleições, embora importante, não é a força motriz que pode construir
as possibilidades de superação desta ordem educacional (e social) vigente.
Desta forma, queremos chamar todos os/as estudantes a participarem das
diversas lutas que possuem caráter permanente na universidade, desdobradas em
táticas importantes:

Construir o Fórum de Representantes Discentes (RD’s) unitário, para que a
direita não tenha vez dentro da burocracia da Universidade;
– Compor
e construir a luta pela Paridade nas unidades e nas câmaras e conselhos gerais
da universidade; e o Comitê de luta pela paridade espaço unitário dentro da
UFRGS;

Construir o Grupo de Trabalho Universidade Popular (GTUP) na perspectiva de um
movimento não só estudantil, mas também universitário que lute por projetos autônomos
e populares articulados a um projeto de universidade que dispute os rumos da
UFRGS.
– Construir e articular nos diferentes campi o Coletivo de Bolsistas
recentemente fundado na UFRGS;

– Chamar e articular o calendário de lutas dentro da UFRGS que tenha fôlego
para todo o ano de 2015!

Lutar, Criar Universidade Popular!