E que venha 2017: Cinco razões para se manter empolgado em uma situação política tão difícil

Um dos teóricos mais importantes da tradição marxista,
Antonio Gramsci, elaborou uma máxima que serve como guia para a atuação
política através do “otimismo da vontade e o pessimismo da razão”. A situação
brasileira tem se tornado cada dia mais intragável onde o avanço de uma
ideologia fascista cultivada diariamente pela mídia burguesa e um pacote
avassalador de medidas antipopulares e pró-capital sendo empurradas goela
abaixo pelo governo golpista. Isso tudo gera um profundo mal-estar. Para
piorar, sofremos duras derrotas que vão desde o golpe, que começa com o
impeachment, até os fracassos eleitorais de 2016, principalmente quando
tínhamos grandes expectativas na candidatura de Marcelo Freixo no Rio. No campo
internacional a situação se agrava com o isolamento de Cuba e Venezuela em
resultado da forte investida imperialista na América Latina. As tragédias da
guerra Síria e a crise de refugiados só nos alertam que nada está tão ruim que
não possa piorar. A cada dia, o peso da conjuntura parece nos esmagar com mais
e mais força. Uma avalanche de retrocessos faz até os maiores entusiastas das
lutas populares arrefecer seus ânimos. Parece então que o pessimismo transcende
a razão, abala e neutraliza a nossa vontade, nos fazendo desacreditar em
projetos coletivos, reforça o individualismo lançando-nos num recolhimento
pessoal para que preservemos nossa sanidade. Tem sido frequente e corriqueiro
que militantes, dos vários matizes ideológicos e campos de atuação, se afastem
da militância por adoecimento: a saúde mental dos militantes vira pauta de
reunião.
O intuito desse texto é contribuir com um debate
fundamental: estamos vivendo um dos piores momentos da humanidade desde a queda
da URSS e do grande refluxo que o movimento de esquerda sofreu em nível global.
É preciso reafirmar com a máxima convicção, tanto da vontade quanto da razão,
científica e emocional, que a única saída para a crise que vivemos é estrutural.
Uma crise estrutural só pode ser superada estruturalmente. Por isso, defendemos
que mesmo com a justeza, validade e atualidade da máxima gramsciana, se não
encontramos ânimo em nossa vontade quem sabe a razão possa renovar nosso
otimismo. O marxismo-leninismo nos dá algumas indicações importantes de que a
esperança não está perdida. Pelo contrário, as possibilidades de luta foram
incrementadas drasticamente nos últimos anos e a história caminha a passos
agigantados. Acabou a pasmaceira. As derrotas atuais são reflexos e sínteses de
erros anteriores. Mas não é tarde para corrigir o rumo e recuperar nossa força
e energia. Abaixo apontamos algumas razões, à luz das lições históricas, que
confirmam nossa hipótese.

1. A esperança

Uma grande lição nos ensina o grande compositor
comunista Taiguara Chalar “/Quem só
espera não alcança
/Mas quem não sabe
esperar
/erra demais, feito criança/Cai. /E até se entrega ou trai./E
cansa de lutar
/”. A luta revolucionária nunca é feita de acordo com o que
desejamos. Proclamar uma bandeira é algo bastante distinto de organizá-la. Ela
é feita de acordo com as condições objetivas, a correlação de forças, o nível
de organização que alcançamos, bem como de acordo com a nossa capacidade de
escolha entre um ou outro caminho diante dos desafios apresentados. Querer
executar uma tarefa, ou alcançar um objetivo tático específico deve levar em
conta esses dois complexos de problemas. Chamamos voluntarismo aquele vício
político que não leva em consideração as condições objetivas, e motivado por
pura vontade, idealizando a conjuntura, busca lançar-se na realização dos seus
objetivos. Pregar que há esperança, mesmo num cenário tão difícil, não
significa apassivar-nos, como bem afirma Taiguara. Mas não saber esperar o
momento adequado onde as condições objetivas e subjetivas estejam maduras para
determinada ação pode levar a erros, decepções e consequentemente uma
frustração que cria um forte mau-estar e uma sensação de impotência.
2.  A boa e velha paciência histórica

Muitas vezes ouvimos falar que é necessário ter
“paciência histórica”. Mas o que significa isso? Mais uma vez não significa
apassivamento. Para além de um chavão, a paciência histórica significa
reconhecer e entender que o movimento e o tempo da história não é o mesmo que
dos indivíduos. Ele tem marchas e contramarchas, avanços e retrocessos. Ele não
pode ser mudado pela vontade individual, ou de um pequeno grupo de pessoas. Mas
se ser paciente não significa recolher-se como apenas observador dos fatos, o
que significa? Não ficar paralisado não implica que temos que “tomar o poder
amanhã”, por outro lado, é a preparação necessária para o momento adequado.
Aqui está em evidencia um importante conceito leninista: crise revolucionária.
Em 1901, em meio a violentas greves da passagem do século em resultado da
tardia industrialização russa e da desapropriação do campesinato, Lenin afirma
em um texto chamado Por onde começar?
publicado no Iskra[1]:
Nestas condições, qualquer homem capaz de
considerar o conjunto da nossa luta, sem se deixar distrair com cada “viragem”
da história, deve compreender que a nossa palavra de ordem, na hora atual, não
poderá ser “Ao assalto!”, mas sim, “Empreendamos o cerco sistemático da
fortaleza inimiga!”[2].
Em
1917, dezesseis anos depois, o contraste da escrita de Lenin é absurdo. Em A crise amadureceu[3], ele chama “traidores” os
Bolcheviques que se recusassem a tomar o poder imediatamente, a mobilizar o
exército de operários em armas que estavam a sua disposição. Segundo ele, seria
completa traição ao campesinato, aos operários, aos soldados, aos operários do
mundo todo, se eles esperassem que o congresso dos sovietes decidisse sobre
tal. Ele afirma categoricamente que a necessidade da insurreição é imediata!
Mas o que mudou? Levaria mais do que uma vida para conseguir entender
completamente os acontecimentos que fizeram Lenin sair do “cerco à fortaleza
inimiga” para o “assalto final”. Mas numa análise mais rápida podemos indicar
que se trata de anos de têmpera e treinamento político nas condições mais
difíceis de autocracia czarista. Noutras palavras, a preparação. É evidente
agora, tal qual na situação lenineana, que não estamos preparados para um
assalto final. Talvez hoje a história esteja bem mais acelerada que 5 anos
atrás, mas a necessidade de recompor nossas forças, reorganizar nossas tropas,
fortalecer as lutas que estouram num e noutro lugar, se torna mais imperativo
do que lançar palavras de ordem ao vento como solução mágica. Lenin aguardou o
momento correto, quando o governo provisório vacilava diante da urgência pela
paz, pela crise geral de abastecimento da Rússia gerada pela Guerra. Mas
enquanto o momento correto não chegava, os bolcheviques fortaleceram os
sindicatos, os sovietes e a organização popular como um todo. Educaram as
massas uma lição de rebeldia, organização e espera pelo momento crucial: a
chegada da crise revolucionária. Por outro lado, novamente com Taiguara, a
chegada dos momentos de crise sem que haja uma alternativa fortalecida pode
levar a consequências desastrosas, como o fascismo, onde Gramsci afirma surgir
quando “o velho resiste em morrer e o novo ainda não pode nascer”. Portanto, se
não compreendermos essa dimensão essencial de como a história se move, não
seremos capazes de fazer nossa própria história. É natural termos esse sentimento
de impotência e desânimo diante de condições difíceis e duros retrocessos. Mas
não há solução mágica. É preciso levantar a cabeça e começar a fazer política
desde a base, com a noção de que as coisas não vão mudar de uma hora para
outra, estamos em acúmulo de forças.


 3. O proletariado nunca sofreu uma
derrota definitiva


A
sociedade capitalista é última sociedade dividida entre classes. Ou a
humanidade se auto-extingue, acabando com o proletariado e toda a sociedade, no
caso de uma guerra de grandes proporções em tempos de artilharia nuclear
altamente avançada. Ou o capitalismo é superado abrindo espaço para a
edificação do comunismo. Os burgueses e imperialistas podem se regozijar o
quanto quiserem de suas vitórias passageiras e momentâneas. O proletariado pode
perder quantas batalhas forem precisas, mas jamais perderá a guerra. Mesmo a
restauração capitalista na União Soviética, a morte de Fidel e Chávez, ou
qualquer fenômeno análogo que possa dar prazer aos reacionários não pode deter
o imperioso movimento da história e das relações de produção que leva,
inevitavelmente, a crises cada vez mais profundas e recuperações cada vez mais
lentas. Nada pode deter o proletariado consciente em sua inquebrantável missão
universal de livrar e emancipar a humanidade do jugo do capital. Com isso, os
próprios comunistas são a maldição da burguesia, aqueles que nunca foi possível
extirpar por completo. Uma derrota definitiva do proletariado, portanto, só é
possível com a própria burguesia se auto-destruindo em conjunto, já que não
existem possuidores sem despossuídos, e vice-versa. O perigo de extermínio
humanitário é a principal razão para que nos apressemos na construção da luta
revolucionária. Mas não apenas.

O
grande problema é o sofrimento durante esse longo e penoso caminho pelo qual
devemos atravessar enquanto não temos forças suficientes para arremeter a
investida final. Incontáveis perdas humanas em guerras, fome e miséria,
degradação ambiental, vidas desperdiçadas em trabalho inútil. Esse é o grande
ônus que as derrotas momentâneas geram através do atraso provocado pela reação.
Ter
em mente essa determinação fundamental da história, da invencibilidade
proletária, não implica novamente, porém, em apassivamento. Antes uma razão
para jamais apassivar-nos, jamais abaixarmos a cabeça e achar que não há nada
para ser feito. Sempre há uma saída, até porque como diria Brecht: “As
revoluções começam sempre nas ruas sem saída”.

4. Cuidado com as falsas impressões nas
redes sociais

Em
momentos de confusão política e ideológica temos que ser excepcionalmente
cuidadosos com as chamadas “redes sociais”. É natural que o aprimoramento dos
instrumentos de comunicação leve informações dos mais escondidos rincões até a
público. Igualmente, grandes acontecimentos políticos e sociais provoquem
reações massivas e chamadas “virais”. Disso decorre uma tendência de
compartilhamento de vários sentimentos políticos e sociais com muita rapidez.
Se sofremos uma derrota, logo há uma torrente de reações negativas em cadeia
que provocam um desespero em conjunto. Por outro lado, até a menor vitória e a
mais singela demonstração de resistência que aconteça em qualquer cantinho do
Brasil pode levar à uma empolgação desmedida, na medida em que “viralize”.
Nossa vida política se torna um mar de lamentações e uma montanha-russa de
voluntarismo.
O
Facebook, rede social mais utilizada, tem em especial um efeito deletério sobre
nossas mentes. Ele opera com um “algoritmo bolha”, pois as atualizações de
nossos contatos aparecem mais frequentemente de acordo com as publicações e os
autores que mais curtimos. Isso cria, então, literalmente bolhas sociais e
fortalece a falsificação da realidade. Quem nunca abriu seu feed de notícias e
sentiu que estávamos à beira da revolução? Ou também o oposto, sentindo que tudo
estava perdido, nada mais fazia sentido? Isso tudo é uma falsificação da
realidade criada pelo isolamento informacional do Facebook. A possibilidade de
medição do ânimo das massas através da internet deve ser utilizada com extrema
cautela. Devemos manter uma firmeza inquebrantável diante das reações
desmedidas provocadas pelo efeito bolha das redes sociais. Nosso foco, apesar
de ser importante a disputa das redes, deve ser o trabalho político na
concretude do movimento de massas. Constituir uma organização e a luta
revolucionária implica em um longuíssimo, paciencioso e ININTERRUPTO trabalho
de educação das massas que não pode ser desviado ou enfraquecido a cada
factoide da legislação burguesa que abala nossos ânimos por conta de nossa
abrangência limitada.
Ao
mesmo tempo, as redes sociais criam um profundo efeito desorganizador e
desagregador. A militância popular é constantemente levada à uma espécie de
“assembleia permanente”, cujo conteúdo da discussão é sempre limitado a frases
soltas e desprovidas da reflexão adequada. Em especial, as organizações e
partidos, diferente da tradição revolucionária, deslocaram o centro da luta
ideológica das obras literárias, das revistas, dos jornais e órgãos centrais,
para uma enxurrada de querelas mesquinhas, de perfumaria política. Isso tudo
abre espaço para provocações baratas em detrimento da política de conteúdo, de
fôlego. Não se trata de censurarmos o debate ideológico e de concepção nas
redes sociais, até porque ele é imprescindível e necessário para resolver a confusão
ideológica que impera no movimento e estabelecer os liames políticos mais
definidos. Não é possível separar a definição da política correta sem desmontar
a argumentação oportunista, dogmática, sectária, reformista, revisionista, etc.
Mas para tornar a discussão “produtiva” ela precisa se apoiar em instrumentos
políticos adequados onde ela tenha resultados práticos para o movimento, ou
seja, gire em torno de porta-vozes legítimos dos movimentos (não pessoas, mas representantes
legitimamente designados, órgãos de comunicações, direções, etc) e espaços de
conferências, encontros e congressos para que haja saldo político-organizativo.

5. Nenhuma lei burguesa é permanente


Aos
nossos caros inimigos burgueses, reacionários e fascistas dizemos apenas o
seguinte, inspirados em Belchior: “Não cante vitória muito cedo, não”. Isso
porque como já demonstrou inúmeras vezes a história NENHUMA LEI BURGUESA É
DEFINITIVA. Nos últimos meses temos visto uma chuva de legislações tenebrosas
por parte da junta golpista e desse Congresso entreguista que nos fazem pensar
que retrocedemos décadas em termos de direitos sociais. De fato, são
retrocessos imensuráveis. Mas a história é sempre carregada de surpresas. Quem
sabe, a PEC 55 possa ser derrotada em prazo curtíssimo. Quem sabe a entrega do
Pré-sal ao capital estrangeiro seja revertida antes mesmo que possam consumir
10% de sua capacidade produtiva. São apenas suposições e especulações se
descoladas da realidade da luta de forças no interior da sociedade. O que
queremos denotar é que a aprovação de
uma lei reacionária não é o fim do mundo
. Seu resultado decisivo depende do
desenrolar da luta de classes e da capacidade das forças populares em se
reorganizarem, superarem a inércia e o imobilismo, pararem de se preocuparem
quem será o cabeça-de-chapa em 2018 e partirmos para um esforço monumental em
reorganizar nossas forças.
Rosa
Luxemburgo defendia que uma organização revolucionária surgiria do ímpeto
espontâneo revolucionário das massas insurrectas, e Karl Kautsky afirmava que a
consciência de classe e a ideologia socialista só viriam de uma camada externa
ao proletariado por intelectuais que introduziriam o marxismo nas massas. Lenin
por outro lado realizou uma síntese dessas compreensões a partir de seu
conceito de “crise revolucionária”, quando uma longa preparação das massas
através de um amplo trabalho de educação e de luta permanente forjariam os
quadros revolucionárias que conduziriam, num momento de crise da dominação dos
“de cima”, a levarem a luta até as suas últimas consequências. O momento de
crise generalizada em razão dessa legislação reacionária surgirá
inevitavelmente e cabe a nós estarmos preparados para lidar com ela. Essa
preparação certamente exige paciência e convicção. A cada dia o governo
golpista perde mais credibilidade e sua fragilidade se põe de forma cristalina
diante de nossos olhos. O grande problema é que estamos despreparados para pôr
abaixo este castelo de cartas montado pelo impeachment. O “sindicalismo
amarelo”, a máfia sindical pelega que controla boa parte dos sindicatos não
está disposta a fazer esse enfrentamento e derrubar tal legislação. Mas essa é
uma circunstância momentânea que precisa ser revertida o quanto antes.
A
teoria da luta de classes nos ensina que qualquer legislação estatal não é mais
do que um reflexo de uma correlação de forças dada na sociedade. O impulso e a
segurança com que o governo golpista impõe sua agenda só acontece pela
dispersão e desmobilização da massa proletária-popular de nosso país. Mészáros
em seu livro A montanha que devemos
conquistar
afirma que o “nível” da democracia burguesa é sempre relativo às
necessidades da classe dominante em forçar seus interesses no lombo do
proletariado. Sendo o “Estado de exceção” na verdade um “Estado de regra”. A
única e verdadeira cláusula pétrea constitucional da sociedade burguesa é a lei
da força, a lei do mais forte (Might-as-Right).
O impeachment inconstitucional e as constantes violações da nossa Carta Magna
revelam isso de forma pungente. É claro que quem detém o poder econômico,
político e militar tem uma significativa vantagem sobre nós. Mas nós temos as
massas, a posição que representa os interesses da imensa maioria e a única arma
que o proletariado possui na sua luta pela libertação, como diria Lenin, é a
organização. Temos que organizar as massas, isso é uma obviedade; e para não desanimarmos
é preciso relembrar que as massas organizadas e decididas são uma força a qual
nenhuma lei resiste. É uma questão de tempo, portanto, que esse conjunto
reacionário de legislação seja varrido da história, e seus legisladores
exemplarmente punidos.
Limitadas
conclusões

O
afastamento de muitos militantes e a depuração das organizações populares já
começou. Ao mesmo tempo, um grande número de pessoas também tende se aproximar
da luta, em razão também da própria conjuntura. Para muitos que já dispenderam
anos da sua vida dedicadas à causa revolucionária de fato pode parecer que
estamos entrando numa lama irreversível e temos muitos colegas que abandonam a
militância de uma hora para outra. Certamente, a afirmação de Einstein de que
“Quando a mente se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”,
isso significa que muitos dos lutadores que se afastam hoje das lutas podem
voltar num futuro próximo. Não há fórmula pronta para resolver nossos dilemas
atuais. Será necessário um longo período, com muitas críticas e auto-críticas
para que isso seja resolvido, muitas contradições e conflitos. Novamente isso
implica em invocar a paciência histórica.
A situação global afeta diretamente a nossa
subjetividade. É preciso lembrar que toda subjetividade tem sua origem na
objetividade[4]. Como
lidamos com a negatividade cotidiana é um desafio não apenas pessoal, mas
coletivo.  Em Um
passo em frente, dois passos atrás
, em 1904, Lenin cita Karl Kaustky
compartilhando sua concepção da diferença entre a disciplina do proletariado e
a disciplina dos intelectuais pequeno-burgueses dentro da luta política:
O proletariado não é nada
enquanto permanecer um indivíduo isolado. Toda a sua força, todas as suas
capacidades de progresso, todas as suas esperanças, as suas aspirações, tira
–as da organização, da sua atuação sistemática em comum com os seus camaradas.
Sente-se grande e forte quando faz parte de um grande forte organismo. Este
organismo é tudo para ele, enquanto um indivíduo isolado, em comparação com
ele, significa muito pouco. O proletário luta com a maior abnegação como uma
parcela da massa anônima, sem pretender vantagens pessoais, glórias pessoais;
ele sempre cumpre o seu dever em qualquer cargo onde seja colocado,
submetendo-se voluntariamente à disciplina, que penetra todos os seus
sentimentos, todo o seu pensamento. (KAUTSKY apud LENIN).
Qual a lição que tiramos dessa afirmação? Na luta
revolucionária os problemas, a ansiedade, o sentimento de impotência, a
frustração e o pânico engendrados por tempos tão difíceis só podem ser
resolvidos decisivamente de forma coletiva. Nossas “aspirações e esperanças” só
encontram solução pela “atuação sistemática com nossos camaradas”. É claro que
isso depende de resolução pessoal, disposição e iniciativa para encontrar refúgio
em projetos coletivos de transformação social. É complexo, pois as divergências
aparecem em qualquer atividade humana, em especial uma tão delicada quanto
esta. Qualquer um que não negue por princípio que a derrubada dessa ordem de
coisas seja resultado de um grande trabalho coletivo, tendo de sacrificar em
alguma medida sua subjetividade, deverá concordar com tal proposição. Mais: a
subjetividade humana jamais se realizará com plena liberdade enquanto o todo da
humanidade não estar plenamente emancipada. Aqueles que desejam evitar os
ardores da luta e preservar a sua “saúde mental”, ou que não tenham interesse
em se sacrificar para tal e apenas querem levar sua vida, também estes jamais
serão plenamente livres. Por fim, como diria Brecht: “Não siga
sem nós o caminho correto/Ele é sem nós/O mais errado.
Não se afaste de nós!”.
Por
Giovanny Simon


[1]                     Em português significa “centelha”,
foi o jornal político dos sociais-democratas da Rússia
pré-revolucionária.
[2]                     Fonte:
http://textosmarxistas.blogs.sapo.pt/17761.html
[3]                     Fonte:
https://www.marxists.org/portugues/lenin/1917/09/29-1.htm
[4] Conforme afirma
Marx nos Manuscritos
econômico-filosóficos
: “Um ser que não tenha sua natureza fora de si não é
nenhum ser natural, não toma parte na essência da natureza. Um ser que não
tenha nenhum objeto fora de si não é nenhum ser objetivo. Um ser que não tenha
nenhum objeto fora de si não é nenhum ser objetivo. Um ser que não seja ele
mesmo objeto para um terceiro ser não tem nenhum ser para seu objeto, isto é,
não se comporta objetivamente, seu ser não é nenhum [ser] objetivo. Um ser que
não é objetivo é um não-ser”.