“Acabou a guerra” – Algo extraordinário está acontecendo agora na Colômbia

É com o lema de “Acabou a
Guerra” que se inicia e termina a declaração política final da conferência das
FARC-EP. Os desdobramentos dos acordos de paz celebrados entre a delegação das
FARC-EP e o governo colombiano estão chegando em seu ápice. A guerra civil que
já dura mais de 50 anos está próxima do fim. Tanto que as FARC realizaram sua X
Conferência Nacional Guerrilheira, entre os dias 17 e 23, deste mês,
autorizando o Estado-Maior Central da guerrilha a levar a cabo o processo de
convocação de um congresso fundacional de um novo partido político, esboçando
seu estatuto, linha política e funcionamento. Consideram que o Acordo
Final garante os mínimos necessários para que se avancem numa transição
democrática avançada na Colômbia.
As FARC-EP expressam um
grande avanço político, dando evidências de estar sintonizado com o que há de
mais avançado da luta revolucionária, mencionando os povos indígenas, a luta
das mulheres, dos negros e da população LGBT. Ambicionam, inclusive, a
convocação de uma Assembleia Constituinte no país, levando a crer que se
preparam para uma nova etapa e uma nova forma de luta política. Afinal, a
guerra civil pode ter acabado, mas luta de classes não findou.
Ainda é incerto o que
pode resultar disso, tanto positiva quanto negativamente para o avanço do
movimento revolucionário na Colômbia e na América Latina. A única certeza que
podemos ter é que esse é um dos fatos mais extraordinário das últimas décadas,
na América Latina e no mundo, chamando atenção de vários chefes de Estado e
autoridades políticas internacionais. Como vizinhos e irmãos continentais, nós
brasileiros  temos de estar atentos e
atuar como entusiastas das lutas pela paz na Colômbia. Também, nós comunistas,
devemos exercer cotidianamente nosso internacionalismo expressa pela
solidariedade com o povo colombiano. Com esse intuito, a JCA traduziu para o
português a declaração final farquiana:
Declaração Política X Conferência Nacional Guerrilheira – Comandante
Manuel Marulanda Veléz
 Acabou a
guerra, vamos todos e todas construir a paz!
Os guerrilheiros e
guerrilheiras delegados de todas as estruturas das FARC-EP de todo território
nacional e vindos desde a Colômbia profunda, reunidos na X Conferência que
aconteceu nos dias 17 a 23 de setembro de 2016, em Brisas do Diamante, nas
savanas de Yarí, enviamos ao povo colombiano e à sociedade em geral nossa mais
fraterna e calorosa saudação de compatriotas. Ao mesmo tempo declaramos que:
Realizamos uma bela
e transcendental conferência, em meio a mais ampla participação democrática e
camarada, na qual reafirmamos a coerência e unidade interna da nossa
organização. Destacamos a participação ativa e nutrida das nossas guerrilheiras
e quadros políticos jovens.
Após uma discussão
avaliativa sobre os Acordos de Havana, Cuba, Território de Paz, celebrado entre
as FARC-EP e o Governo da Colômbia, para o término do conflito e pela
construção da paz estável e duradoura, a Conferência, nossa instância máxima de
decisão, determinou por aprovar em sua totalidade e instruir a todas as
estruturas de blocos e frentes, a nossos mandos, guerrilheiros, milicianos e a
toda nossa militância farquiana que este seja acolhido e respeitado. Temos
referendado assim nosso compromisso irrestrito com o cumprimento de todo o que
se tem conveniado. Assim mesmo, esperamos que Governo atue, com a devida
correspondência. 
Temos o convencimento
de que o Acordo Final contém um grande potencial para a abertura de uma transição
política até a transformação da sociedade colombiana, por sua real
democratização e materialização de seus direitos e especialmente para o bem
viver e bem-estar das mulheres e homens humildes nos campos e cidades, da
classe trabalhadora, dos povos étnicos, indígenas e afrodescendentes, da
população LGBTI e, sobretudo, para os jovens e gerações futuras. Chamamos elas
e eles a abraçarem e protegerem os acordos, fazê-los seus, a acompanhar e
exigir sua implementação. Unindo esforços alcançaremos os propósitos comuns de
consolidar a perspectiva e uma paz com justiça social, a reconciliação nacional
e a democracia avançada para a nova Colômbia.
O Acordo Final
celebrado em Havana, Cuba, contém os mínimos necessários para dar continuidade
pela via política a nossas aspirações históricas para a transformação da ordem
vigente. Por essa razão, decidimos fazer todos os tramites necessários para o
trânsito de nossa estrutura político-militar para um novo partido político,
cujo congresso fundacional deve acontecer, mais tardar, em maio de 2017, caso
se implementem os acordos, tal como está firmado. Será função do partido dar
continuidade aos nossos propósitos políticos de caráter estratégico pela construção
social do poder para o povo. A Conferência faculta à direção nacional das
FARC-EP a convocação de um pleno do Estado Maior Central e defina a ampliação
da nossa nova direção que faça cargo da preparação do congresso, do programa
político, do estatuto e da linha política, assim como das condições
organizativas e de funcionamento.
Nos comprometemos a
oferecer toda nossa força e energia pela unidade dos setores progressistas,
democráticas e revolucionários do país, dos movimentos políticos e sociais das
múltiplas organizações setoriais e reivindicatórias a nível nacional, regional
e local. Queremos fazer parte de uma grande convergência nacional, que abarque
o espectro das lutas sociais e populares, acumule pela real democratização
política, econômica, social e cultural do país, e cuja plataforma, fundamentos
organizativos e de coordenação deverão ser o resultado de uma elaboração
coletiva. A grande convergência deverá ter a capacidade de construir o poder
social, político e popular, desde baixo e ao mesmo tempo de disputar o poder do
Estado nos espaços institucionais e eleição e representação. 
Trabalharemos por
um novo governo de construção de paz e reconciliação nacional a partir da
definição de um programa mínimo, que além de se compromete com a implementação
do Acordo Final, recorra às aspirações sociais mais sentidas no imediato da
população. 
Convocamos a tornar
realidade o chamado “a todos os partidos, movimentos políticos e sociais e
a todas as forças vidas do país a construir um grande acordo político nacional
encaminhado a definir as reformas e ajustes institucionais necessários para
atender os desafios que a paz demande, colocando em marcha um novo marco de
convivência política e social”, tal e como se estabeleceu no Acordo Final.
As condições propícias para esse propósito se encontram no impulso a um
processo constitui aberto que conduza à convocatória e realização de uma
Assembleia Nacional Constituinte.
Acabou a guerra,
vamos todos e todas construir a paz!
Brisas do Diamante,
savanas de Yarí, 23 de setembro de 2016