A MARÉ DA HISTÓRIA NÃO DESENHA CÍRCULOS: As Derrotas do ontem precisam virar as vitórias do amanhã!

O ano que terminamos trouxe ao povo brasileiro experiências políticas difíceis, algumas derrotas, mas muita resistência e disposição para lutar. Foi um ano duro, em que a agenda das classes dominantes avançou sobre os direitos do povo, trazendo pioras na qualidade de vida e aprofundando a histórica dependência do capitalismo brasileiro e submissão aos interesses imperialistas. Apesar de já sentirmos os impactos da avalanche de medidas anti-povo aplicadas em 2017 – como o congelamento nos investimentos em saúde e educação (EC 95), a contrarreforma do ensino médio e a contrarreforma trabalhista, assim como a lei das terceirizações -, o fôlego de nossas lutas, em especial a greve geral de 28 de abril de 2017, fez com que impedíssemos as elites de acabar com a Previdência Social ainda durante 2018. Este ano de constante resistência e algumas derrotas deve ser lembrado, e devemos refletir sobre seus principais acontecimentos para nos prepararmos para os desafios do período que segue.

O início do ano foi marcado pela violência dos aparelhos repressivos do Estado brasileiro: desde fevereiro, a intervenção militar racista e assassina no Rio de Janeiro intensificou a violência contra o povo pobre e negro das periferias do estado, sem avançar no verdadeiro combate ao narcotráfico e à violência, que estão entrelaçados com os interesses dos governantes. Violência esta que não poupou esforços em perseguir as principais lideranças do movimento popular, executando brutalmente Anderson Gomes e Marielle Franco, grande lutadora do povo e mais uma vítima de um regime que, cada vez mais, testa as forças populares ao assassinar a sangue frio aqueles que possuem sua cara – uma mulher negra e lésbica, reconhecidamente representante dos anseios de parcela significativa da população, que investigava e lutava contra a violência policial e a dominação sanguinária das elites contra a população negra. Ainda, em uma investigação criminosa com o fim exclusivo de garantir a agenda golpista e negar qualquer chance para que o povo pudesse fazer frente à face eleitoral do golpe de estado, o ex-presidente Lula foi preso, no início de abril. A prisão de Lula é uma vergonha internacional e um crime contra todo nosso povo e seus batalhadores; evidencia que o regime de exceção que estamos vivendo irá se utilizar de quaisquer meios para lutar contra os anseios populares e suas reivindicações.

Em maio, a mídia golpista se voltou para noticiar a greve dos caminhoneiros que, apesar de possuir algumas reivindicações justas, foi desde o início dirigida por setores da direita. Por baixo dos panos, Temer desmontava a Petrobrás em favor do capital estrangeiro, através do desmonte da soberania nacional sobre a exploração do petróleo pela venda do Pré-Sal e uma nova política de preços alinhada aos interesses das petrolíferas transnacionais. Contudo, uma justa política de preços dos combustíveis deveria passar pelo reforço do caráter público e estatal da Petrobrás, e pela destinação das verbas do Pré-Sal para a educação e saúde públicas, e não pela privatização da estatal.

Já em setembro, o país vivenciou o trágico incêndio do Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro. Tamanha catástrofe decorreu sobretudo de uma considerável diminuição do repasse de verba federal destinada ao museu – aproximadamente 50% em 5 anos, cifra bastante representativa da política de desmonte das instituições públicas e do patrimônio cultural e científico nacional. O incêndio de grandes proporções causou danos irreparáveis à nossa memória histórica, científica e cultural – já amplamente silenciadas e negadas ao nosso povo, sobretudo ante o reascenso do conservadorismo e da onda fascistizante no país. 

Tal ascensão fascista foi evidente durante as eleições presidenciais do segundo semestre. Inicialmente, no primeiro turno, identificamos em Guilherme Boulos (PSOL) um programa mais próximo ao povo e às lutas dos movimentos sociais. No entanto, compreendemos que as eleições burguesas não representam a solução de todas as mazelas que afetam a sociedade, e que o processo de golpe que estamos vivendo não cessaria mesmo com a eleição da candidatura que entendemos como a mais avançada. No segundo turno, marcado pelo fenômeno das campanhas via redes sociais e disseminação de fake news através de redes financiadas por caixa 2, nos deparamos com um candidato que representa os ideais anti-povo, que agradam a burguesia nativa e as forças imperialistas, aliados a discursos de ódio. Na oposição, concorria um candidato bastante limitado programaticamente, e que representava a retomada do Partido dos Trabalhadores na presidência, mas também a esperança democrática no nosso país. Bolsonaro, eleito presidente da República, representa uma nova roupagem para o processo golpista, fazendo com que a burguesia tenha uma representação renovada e mais agressiva, substituindo o velho PSDB e outros partidos de direita. O novo presidente, empossado no dia 1 de janeiro de 2019, ainda no período de transição apontou mudanças perversas nos rumos da política nacional, como a extinção do Ministério do Trabalho, a nomeação de Sérgio Moro – juiz que decretou a prisão do ex-Presidente Lula – como Ministro da Justiça e declarações que resultaram na retirada de Cuba do programa Mais Médicos, que deixou um rombo de quase 10.000 profissionais nas regiões mais pobres e vulneráveis do Brasil.

Todas essas turbulências servem para refletirmos sobre como as ofensivas do capital sobre nosso país vêm, a toque de caixa, adequar nossa economia ao mercado internacional, atendendo aos mais variados e destruidores anseios do imperialismo e exigindo que nos mantenhamos na luta. Assim, o cenário instaurado durante o governo golpista de Michel Temer também acirrou as investidas para o sucateamento e desmonte do SUS; para a desvalorização e entrega de nossos recursos naturais e companhias estatais, como a EMBRAER e a Petrobrás; para o enriquecimento do agronegócio, com as cessões ao latifúndio e o “PL do veneno”; a perseguição e criminalização dos movimentos sociais, com destaque sobretudo ao MST e MTST; para a marginalização e extermínio de indígenas e quilombolas, com mais ataques ao seu já ameaçado direito à terra e às suas bolsas de estudo e permanência nas universidades; para o desmonte da educação e da pesquisa públicas, com o corte em investimentos sociais e processos privatizantes, concessão aos grandes monopólios e projetos de instituição de cobranças nas universidades públicas e gratuitas.

No primeiro dia de 2019 teremos a posse de Jair Bolsonaro, e é certo que as investidas contra o povo e a destruição da soberania nacional se intensificarão cada vez mais nestes quatro anos de mandato que estão por vir. Mas não devemos acreditar que tudo está perdido, que a luta é apenas eleitoral e a saída será a próxima eleição; é tempo de resistir para avançar, construindo greves gerais e elevando a consciência de nosso povo, denunciando o governo de Bolsonaro e a manutenção do projeto golpista. 

Não nos enganemos, as elites precisaram acionar uma figura como Bolsonaro porque sua agenda é intragável para o povo. Se para defender a previdência mais de 40 milhões de brasileiros cruzaram os braços, quantos milhões se ergueriam contra o fim do SUS, ou pela paz em nosso continente? Mesmo com todas as dificuldades de mobilização, com dirigentes apelegados e sindicatos mafiosos, o povo brasileiro foi capaz de amedrontar até a espinha toda a classe dominante ao longo de todo esse processo golpista, de aprofundamento da dependência e de nossa miséria. Se apavoraram em abril de 2017, se apavoraram em maio, se amedrontaram de novo quando tomamos as ruas e fizemos uma figura não tão conhecida para o país ganhar 44% dos votos para a presidência, ao entoar um sonoro “Ele Não!”. Que continuem aterrorizados! Não há mais esperança para os de cima que não seja baseada na repressão e violência direta; para nós, toda a esperança do mundo resta. Nossas tarefas se esclarecem com velocidade, e o povo não esquece seus inimigos.

Que venha 2019, seus desafios e vitórias; que possamos caminhar em defesa de nossos direitos, da paz e pela construção do socialismo em nossa terra!