31 de agosto: a consumação de mais um golpe no Brasil

A Nova República nasceu, de
difícil parto, no ano de 1985. Sua Constituição, longe de ser a ideal, mas que
agregou diversas questões sociais, viria três anos depois, em 1988. A junta
golpista estabelecida há quase 3 meses, acabou de assassinar este jovem
democrático período, em seus tenros 31 anos. Não devemos ter dúvidas de que
está também na pauta dos golpistas desmontar as pequenas conquistas de 1988,
que teria, então, 28 anos[1].
A história brasileira, em sua fase republicana, não costuma ter períodos muito
duradouros. De fato, nossa primeira república foi a “Velha”, com a
proclamação (que mais foi um golpe militar) em 15 de novembro de 1889. O golpe
de 1930 foi outro momento chave para entender muitas das estruturas do
capitalismo dependente agrário que se estabeleceu no país. O período
“democrático”, posterior, de 1945-1954 contou com a abertura de
diversas frentes de ação aos comunistas, que sempre lutaram pela melhoria de
vida da população, pelo aprofundamento da democracia (mesmo que calcados com a
estratégia errônea e etapista), cristalizada na heróica “Bancada de
1945”, liderada por Luiz Carlos Prestes, Carlos Marighella, Jorge Amado,
entre outros. Infelizmente, este período se marcou pela rápida cassação do PCB,
com integrantes do partido perseguidos e diversas sedes de sul a norte do país
destruídas, fora que, em muitos momentos, o período democrático dos anos 1940
se fizeram com tanques na rua e ameaças diretas a constituição[2].
Os
momentos que anteviram o Golpe Civil-Militar de 1964, igualmente,
caracterizou-se por diversas tentativas de golpe, desde as que levaram Getúlio
Vargas ao suicídio, até a destinada a retirar Juscelino Kubitschek do poder,
que fracassou. Em 1961, o golpe que pretendia tornar o Brasil um uma república parlamentarista
foi derrotado pela Campanha da Legalidade de Leonel de Moura Brizola. Mesmo com
a resistência e a sobrevida, em 1964 concretizava-se o Golpe Militar que
afundaria o país em repressão, tendo como saldo mais de 30mil torturados, 400
desaparecidos políticos e um banho de sangue no interior, entre os
trabalhadores rurais e os indígenas[3].
O
saldo deste último período, de 1964 a 1985 era sempre dito, por qualquer pessoa
de esquerda, como ainda presente em nosso cotidiano. A “ferida
aberta”, sem resolução, que não conseguimos de fato superar no sentido de
elevar-se melhor em relação àquele período. De uma coisa, há pouco tempo,
tínhamos razão: “1964 nunca mais”. Em 2014 chegamos a comemorar que
os 50 anos passados do golpe haviam-nos ensinado que nunca mais aceitaríamos
que uma junta burguesa corrupta e biltre, através dos interesses dos grandes
conglomerados financeiros e do Império Estadunidense, governar e decidir por
nós. Entretanto, nossas palavras e intenções não foram suficientes.
A
Juventude Comunista Avançando, juventude ligada programática e ideologicamente
ao Polo Comunista Luiz Carlos Prestes orgulha-se, por um lado, de ter estado
sempre do lado correto da história, posicionando-se contra o golpe desde seus
primeiros momentos. Por outro, lamenta imensamente não conseguir, em conjunto
com todas as forças que se uniu, a barrar o Golpe Institucional em 31 de Agosto
de 2016.
Muitos,
como nós, devem estar absortos em tristeza e pesar. Imaginando, como é próprio
de nossa geração, tão acostumada a rapidez da informação e dos sentidos, que a
democracia morreu. Não. Ela não morreu: foi-nos roubada. Sequestrada. E
exigimos ela de volta. Exigimos que tenhamos o direito de governar nossa
própria vida, que possamos discutir nossos direitos, que possamos avançar nos
direitos trabalhistas, nos direitos das mulheres, das negras e negros e da
população LGBT, dos povos originários, das pessoas com deficiência.
A JCA reafirma seu compromisso com os oprimidos, com a democracia e com a luta
cotidiana de milhões de brasileiros para atingir condições melhores de vida.
Sabemos que a partir de hoje se abre uma era nefasta e temos consciência de que
devemos nos organizar muita mais e melhor. Estaremos junto com a Frente Povo
Sem Medo e nos colocaremos sempre a disposição para construir a unidade
necessária para que tenhamos, das garras dos lacaios do Imperialismo, nossa
democracia. A história, como disse o velho Marx, se repete a primeira como
tragédia e a segunda como farsa. A farsa dos golpistas, escancarou-se ao povo,
foi e é visível os interesses escusos, mesquinhos, oligárquicos, escravocratas
que representam os golpistas. Para a esquerda em nosso país, faz-se fundamental
também uma reflexão séria e profunda sobre a sua organização e
representatividade. Sobre suas tarefas e lutas presentes e futuras. Não
deixaremos a burguesia em paz, não deixaremos o golpista Temer desgovernar o
país. Enquanto houver um lutador do povo em pé, estaremos marchando.
FORA TEMER!
VIVA A DEMOCRACIA!
VIVA O POVO BRASILEIRO!

[1]
Discorremos já mais amplamente sobre isto na última nota de conjuntura da JCA: http://www.jcabrasil.org/2016/07/a-junta-golpista-do-governo-interino-de.html
[2]
Ver PRESTES, Anita. Luiz Carlos Prestes: um comunista Brasileiro. Capítulos X e
XI.
[3]
O período militar seguiu, na verdade, uma “tradição” brasileira de se
massacrar camponeses e indígenas, entretanto, sem nenhum escrúpulo ou vendagem
“democrática”. Para tal, ver: http://www.cnv.gov.br/images/pdf/relatorio/Volume%202%20-%20Texto%205.pdf