100 anos de CARLOS MARIGHELLA!

Ouça uma entrevista histórica deste comunista que dedicou sua vida à liberdade de nosso povo. Seu exemplo segue vivo para as novas gerações!
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CARLOS MARIGHELLA, PRESENTE! HOJE E SEMPRE!
Entrevista veiculada pela
rádio Havana (Cuba) em 1967:
Pergunta: Um telegrama da agência de notícia francesa France Press,
fechado hoje no Rio de Janeiro, disse assim: Carlos Marighella será expulso por
indisciplina do comitê central do Partido Comunista Brasileiro, informa hoje a
imprensa de Brasil. Os diários locais, que se baseiam em informações de
recorridas em organismos de segurança brasileiros, indicam que essa decisão do
PCB foi motivada pelo fato de Marighella ter ido à Havana para assistir à
Conferência da OLAS, Organização Latino-Americana de Solidariedade.
Precisamente nos encontramos sentado à frente de Marighella, no seu quarto no
hotel Habana Libre, para que nos dê sua resposta a este telegrama e ao tempo
nos fale a respeito da situação atual do seu País.
Carlos Marighella: O que tenho a explicar ao povo Cubano é que estes telegramas
indicam apenas que os periódicos brasileiros procuram utilizar-se do episódio
da minha vinda a Cuba para fazer provocações contra os revolucionários. A
notícia de que eu serei expulso do Comitê Central do Partido Comunista
Brasileiro ou do Partido Comunista Brasileiro por indisciplina é baseada no
fato de que foram obtidas informações nos organismos de segurança brasileira,
quer dizer, dos organismos policiais, que não podem realmente saber de nada. De
qualquer maneira, como tenho uma posição divergente em relação à direção do
Partido Comunista Brasileiro, pois sou partidário da luta de guerrilhas como
caminho para solução dos problemas do nosso povo, creio que seria ridículo
expulsar um revolucionários somente porque veio a Cuba trazer a solidariedade
do povo brasileiro à revolução cubana e à Primeira Conferência de Solidariedade
Latino-Americana. Quanto à questão levantada nestes telegramas, que noticiam as
posições dos jornais brasileiros que pertenço a uma fração do partido Comunista
juntamente com outros camaradas, no sentido de desrespeitar as decisões do
Partido Comunista Brasileiro, porque somos favoráveis à luta armada, devo
esclarecer ao povo cubano que não pertenço a nenhuma fração. Sou o
primeiro-secretário do Partido Comunista em São Paulo, do Comitê Estadual do
Partido Comunista em São Paulo, e não tenho nenhuma necessidade de organizar
grupo, fração, nem mesmo de organizar um novo partido comunista, porque já
temos em nosso país muitas organizações. Há grande confusão ideológica, muita
gente que pretende atribui-se a condição de líder, de dirigente, mas tudo isto
baseado em declarações, na elaboração de informes, na realização de reuniões,
quando o fundamental para nós no Brasil é passar para a ação, desencadear a
luta armada. É organizar a luta de guerrilhas. Somente em torno da luta de
guerrilhas, somente em torno de um caminho revolucionário como esse é que se
pode realizar a unidade dos revolucionários, a unidade do povo brasileiro.
Assim, seria perder tempo participar de frações, tentar organizar novos
partidos e tentar percorrer o caminho tradicional que não nos ajudará em coisa
nenhuma e só nos levará a passar ainda mais anos na pasmaceira em que nos
encontramos atualmente. Minha posição e a dos camaradas que estão com a mesma
disposição que tem a mesma convicção é exatamente a da preparação da luta
armada, do desencadeamento da luta de guerrilhas e da concentração de todos os
esforços nessa atividade. Era isso que tinha a esclarecer.
Pergunta: Marighella, existem no Brasil forças revolucionárias capazes
de resistir à ditadura de ir à luta armada contra o regime?
Marighella: Sim. Existem essas forças. As forças revolucionárias capazes de
resistir à ditadura e ir a uma luta armada contra o regime encontram-se dentro
do Partido Comunista Brasileiro e fora do mesmo partido. Há várias
organizações, agrupamentos, correntes e forças outras que defendem posição
revolucionária que estão dispostas de ir à luta armada, que têm convicção que o
caminho brasileiro para a salvação de nosso povo é a luta armada, e que podem
realiza-la. Quando existem condições tais como as que se apresentam em nosso
país essas forças revolucionárias são criadas praticamente dia-a-dia e
hora-a-hora. O que é preciso é passar para a ação. Fazer com que essas forças
se coordenem no mesmo sentido e que passem no desencadeamento da luta e se
prepararem. Que vão, portanto, à área rural, que é onde nós podemos, no Brasil,
desenvolver a luta que pode ser apoiada pelos trabalhadores, por todo o povo
dentro das áreas urbanas e, nesse sentido, marchar para conseguir a vitória que
no Brasil só poderemos conseguir se juntarmos esse nosso esforço ao esforço de
todos os outros povos Latino-Americanos.
Pergunta: Agora a gostaríamos de perguntar a cerca da responsabilidade
que corresponde ao PCB ante ao golpe militar de 1964?
Marighella: Não há propriamente responsabilidade do Partido Comunista
Brasileiro em relação ao golpe militar de 1964. A responsabilidade, se
quiséssemos falar assim, maior, realmente cabe à direção do Partido Comunista
Brasileiro. Por que a direção do Partido Comunista Brasileiro cabe orientar as
bases, traçar os planos e orientar todo o povo, dar as diretivas necessárias
para que a luta seja enfrentada. Ora, a direção do PCB seguiu caminho de
submissão à liderança da burguesia. Confiava que os generais brasileiros
pudessem vir a resolver a situação do povo. Confiavam num dispositivo militar.
Realizava, na verdade, ou propunha a realização, de um trabalho de cúpula nos
altos níveis das organizações. Não era trabalho realizado pela base, em que o
povo participasse diretamente de baixo para cima e, por tanto, um trabalho que
tivesse estrutura firme em que o proletariado, o campesinato, as forças de
massa do Brasil estivessem mesmo atentas para a situação. Então, a direção do
nosso partido era direção que estava se conduzindo com base de ilusões de
classe, de ilusões com a burguesia. Evidente que com essa posição deixou o povo
brasileiro inteiramente despreparado e, quando sobreveio o golpe militar de
1964, evidente que não havia condições para a resistência. O povo se encontrava
na rua. Não tinha armas, entretanto. E não havia ação daquelas forças do
governo e da burguesia que o partido, ou melhor, a direção do partido,
sustentava que iriam reagir. O resultado é que inteiramente desprevenidos e
despreparados com todas as ilusões que haviam sido defendidas pela direção do
partido, ficou todo o povo brasileiro impossibilitado de impedir que o golpe se
concretizasse, como acabou se concretizando. Esse é o caso típico de uma lição,
de um ensinamento que se pode obter exatamente pelo fato de que a liderança
comunista deixa de acreditar no proletariado como força dirigente da revolução,
deixa de acreditar no aliado fundamental do proletariado, que é o campesinato,
para lançar-se de mãos e pés amarrados diante da burguesia. Sem condições,
portanto, de impedir o golpe que fatalmente virá em quaisquer circunstâncias
sempre que o Partido Comunista não se preparar para a luta armada e não se
preparar para organizar as forças armadas do povo, que é a única coisa que pode
deter a posição, a ação dos imperialistas Norte-Americanos contra a liberdade
do povo brasileiro ou dos povos da América-Latina.
Pergunta: Que forças revolucionárias e que tipo de organização crê o
senhor lograria a aliança armada entre trabalhadores e campesinos que se faz
necessária para chegar a criar o núcleo do exército de liberação brasileiro?
Marighella: O que nós revolucionários comunistas estamos empenhados na luta armada e
temos a forte convicção que só a luta armada resolverá a questão brasileira, o
que nós revolucionários, o que nós comunistas estamos pensando, é que em face
da situação brasileira e das organizações que ali existem, o que deveríamos
fazer é procurar lançar a luta de guerrilhas na área rural do País sem nos
preocuparmos em que qualquer das organizações existentes tomasse a inciativa.
Não se trata que esta luta armada, que essa guerrilha no Brasil tenha que ser
organizada somente pelo Partido Comunista Brasileiro ou por qualquer outra
organização existente dentre as que atuam no Brasil, sejam as organizações dos
partidários de (Leonel) Brizola, de (Miguel) Arraes, do (Francisco) Julião, da
Ação Popular, da POLOP, da Política Operária e mesmo das organizações da
esquerda católica. O problema não se situaria, portanto, na situação agora de
uma organização que fosse dar a diretiva de luta armada, mas começar a luta
armada com os revolucionários de dentro e de fora do partido, e de todas as
organizações que estejam dispostas dentro de um plano estratégico político
global, a iniciar a luta. Fazer com que esta luta armada, que no caso
brasileiro, como no caso Latino-Americano, penso, tem que ser a luta
guerrilheira. Fazer com que essa luta tenha um caráter duradouro, que dure, que
tenha continuidade, ainda que a principio seja luta que mobilize um grande
número de homens, mas que possa obter êxito iniciais e manter-se e implantar-se
na área rural do país. Isso dará confiança ao povo brasileiro e essa luta
progredirá. E nessas condições, então, no processo, será possível criar-se a
verdadeira organização revolucionária capaz de levar a vitória ao povo
brasileiro através da luta de guerrilha.
Pergunta: É possível lutar pelas reformas de base de forma pacífica em
um Brasil governador por gorilas?
Marighella: Não. Não é possível lutar por essas reforma através do caminho
pacífico num Brasil com a ditadura que tem no presente momento. Já
anteriormente, quando havia o governo de João Goulart, nós seguimos, ou melhor,
nosso partido, sua direção, enfim, os revolucionários no Brasil seguiram esse
caminho, de lutar pela reforma de base pelo caminho pacífico e sob a liderança
da burguesia. Isso nos levou a um fracasso completo e total pois, nas condições
atuais, a burguesia no Brasil e em outros países não tem condição de dirigir a
revolução. E não há condições também, no momento em que o imperialismo lança
mão de sua estratégia global, não há condições para se obter a vitória pacífica
através dessas lutas pela reforma. As reforma de estrutura, de base, que
necessitamos no Brasil, e de que necessitamos em muitos países da
América-Latina, só se pode conseguir através da luta revolucionária. Ou melhor,
através da tomada do poder pela via revolucionária. Quando somente então, e com
forças armadas do povo em ação, podemos dominar a ação das forças reacionárias,
a ação do imperialismo e realizar essas reformas e levar o País até o
socialismo. Fora disso não é possível. E a lição que recebemos no Brasil e uma
lição que pode servir para os demais povos da América-Latina.
Pergunta: Marighella, por último, gostaríamos perguntar o seguinte: que
espera o movimento revolucionário brasileiro desta primeira conferência da
OLAS?
Marighella: Para o povo brasileiro a primeira Conferência de Organização
Latino-Americana de Solidariedade, Olas, significa muito, significa mesmo o
passo mais avançado que foi dado na América-Latina, para que reunamos todas as
nossas forças num plano estratégico global visando obter a liberação de nossos
países do julgo do imperialismo Norte-Americano. Somente agora, e depois que a
revolução cubana conseguiu sua grande vitória, e se encaminhou pelo terreno da
construção do socialismo no primeiro país da América-Latina, tornou-se possível
congregar todos esses esforços, dos revolucionários de toda a América-Latina,
como acontece agora nessa primeira Conferencia da Organização Latino-Americana
de Solidariedade para enfrentar a estratégia global do imperialismo
Norte-Americano. Espero que o movimento revolucionário brasileiro saberá
compreender a importância dessa primeira Conferência Latino-Americana de
Solidariedade e que se junte aos esforços que todos fazemos no sentido que,
como disse o comandante Che Guevara, criar um, dois três, muitos Vietnãs.